Estranhamento / Making Strange

Fiquei de pé entre os dois,
um com a sua inteligência viajada,
a sua reserva morena,
a sua fala como o tanger de uma corda,

e o outro, desalinhado e confuso,
embaraçado nas suas galochas,
pedindo-me ajuda com um sorriso,
confrontado com este estranho que eu trouxera.

Então, com astúcia, uma voz intermédia
veio do campo por sobre a estrada
dizendo:”Sê erudito e também dialectal,
fala do vento a soprar pelo barraco de zinco,

chama-me roseira-brava após a chuva
ou páscoas frescas da névoa.
Mas aprecia também o preparo deste viajante
e chama-me também a seara de Booz.

Vai além da segurança do que te é familiar
em tudo o que chama e chama por ti,
estes olhos e poças e pedras,
e recorda como foste ousado

da primeira vez que te vim mostrar
caminhos em que não podes recuar.”
Um tentilhão voou de um freixo, e num ápice
dei comigo a conduzir aquele estrangeiro

pela minha própria terra, erudito
no dialecto, recitando o meu orgulho
em tudo o que sabia, que começava a fazer-se estranho
nesse mesmo recitar.

estranhamento03

I stood between them,
the one with his traveled intelligence
and tawny containment,
his speech like the twang of a bowstring,

and another, unshorn and bewildered
in the tubs of his Wellingtons,
smiling at me for help,
faced with this stranger I’d brought him.

Then a cunning middle voice
came out of the field across the road
saying, ‘Be adept and be dialect,
tell of this wind coming past the zinc hut,

call me sweetbriar after the rain
or snowberries cooled in the fog.
But love the cut of this traveled one
and call me also the cornfield of Boaz.

Go beyond what’s reliable
in all that keeps pleading and pleading,
these eyes and puddles and stones,
and recollect how bold you were

when I visited you first
with departures you cannot go back on.’
A chaffinch flicked from an ash and next thing
I found myself driving the stranger

through my own country, adept
at dialect, reciting my pride
in all that I knew, that began to make strange
at the same recitation.

estranhamento01

Seamus Heaney, in “Making Strange” de “Da terra à luz” [poemas 1966-1987]

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