:: Não sei… ::

Afirmei vezes sem conta: “não serei cúmplice!”

Na hora de votar, um militante tem uma obrigação adicional em relação à posição de cidadão. Um militante, não podendo dar-se ao luxo da acefalia ‘clubistica’ [a política é ou devia ser coisa séria], deve fazer das fraquezas forças e contribuir além do voto, com o trabalho voluntário de esclarecimento da população. Ser militante é conquistar minutos em todos os segundos do presente para o futuro, para a implementação do modelo que acha correcto. Mas ser militante tem ainda outra responsabilidade: Quem escolhe governantes, numa primeira fase, são os militantes.

Em democracia não há culpados únicos. A personificação da desgraça, da culpa, do roubo, da falta de valor num personagem, não pode esconder os assobios para o ar de quem, numa primeira fase, os escolheu. São os militantes dos partidos que escolhem os governantes. Essa é a responsabilidade outra de um militante. A culpa ou a glória pela escolha feita.
Não que a culpa possa transitar de quem age mal, para quem confiou o seu voto em quem prometeu fazer o bem. Mas porque acreditar que alguém fará o bem com o nosso voto, muitas vezes, não é sustentado nessa premissa. Os jogos de interesse, do empurra, do “dá-me um lugar” ou “fiz parte de um parolo aplauso” de época política, são por norma, a base para um apoio. Raramente se esmiúça ideologicamente o modelo. Sim! O modelo que escolhemos para ser o nosso governante.
Já bati palmas a escroques, confesso-me.
Aos militantes que não escolhem, porque a sua escolha não ganha, cabe o dever de fazer o contraditório, as perguntas incómodas, o cruzar dos braços no meio do barulho dos aplausos, muitos bacocos. É o que tenho feito: cruzar os braços para não ser cúmplice.

Mas chega o tempo de agir. Há sempre um tempo de agir. O voto é a forma de agir.

Mas um militante, ao contrário de um cidadão, não pode usar o seu voto de todas as maneiras possíveis, conforme a consciência. O militante assume com o seu voto uma consequência. “No dia que votar contra o meu partido, deixarei por consciência de dever não cumprido, a militância.” – afirmei duas ou três vezes. Esta frase persegue-me.
Bem sei que há o “ter valores” e o “agir com valores”. E também sei que muita boa gente assume a posição do mal menor, abdicando do compromisso que faz com a militância, ignorando a consequência pessoal e o dever individual de ostentar valores em todos os momentos, e vota contra o seu partido como forma de penalizar aqueles que dirigem [presumivelmente mal] a alternativa do momento.

Não sei se os admire, por tamanha capacidade de anular os princípios por algo melhor no futuro, ou se os critique por afirmarem algo e fazerem outra coisa diferente. Pior são certamente aqueles que são adeptos de um partido… São os piores militantes, é um facto.

As palavras, dizia eu uma vez, têm o poder de tornar real o seu sentido. “Não serei cúmplice!” – disse eu tantas vezes. Não serei!

Resta-me resistir à tentação de minorar os meus valores, como mal menor, para que seja possível ter internamente “um amanhã” que me cante…
Ou talvez me reste apenas agir em conformidade com os meus valores, e “no dia em que votar contra o meu partido”, por evidente embuste ideológico, “deixarei por consciência de dever não cumprido”, ou seja não ter sido capaz de evitar o engano, “a militância”.

O que são as palavras? Meros adereços? E os valores? Podem ser suspensos?

Não sei…

(20 Maio 2014)
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