Desilusão

Desiludido com o mundo,
Afrânio concluiu: «uns são filhos da puta,
outros só não o são
porque a mãe é estéril»

Decidido ao suicídio,
no alto da falésia hesitou:
«no mar não me lanço
que é demasiada sepultura.
Como receberei flores
entre tanto peixe faminto?»

Ante a fogueira, Afrânio desfez as contas:
«Na labareda, não.
Como me distinguiria,
depois, entre a cinza da lenha ardida?»

Quando na alta copa se pensou pendurar,
uma vez mais ele se avaliou.
E recordou o vizinho Salomão
que, de enforcado, se converteu em fruto,
seiva correndo na veia,
polpa viva a seduzir a passarada.

Afrânio regressou a casa,
resfregou as solas sobre os tapetes,
a esposa festejou o novo alento.

Engano seu, mulher; respondeu Afrânio
Eu apenas escolhi outro suicídio.
A minha morte é este viver.

desilusao01

Mia Couto, in “Desilusão” de “idades cidades divindades” capítulo “cidades” (Maputo, 2006)

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