Hors des jours étrangers / Livre dos dias estrangeiros

mon peuple

quand
hors des jours étrangers
germeras-tu une tête tienne sur tes épaules renouées
et ta parole

le congé dépêché aux traîtres
aux maîtres
le pain restitué la terre lavée
la terre donnée

quand
quand donc cesseras-tu d’être le jouet sombre
au carnaval des autres
ou dans les champs d’autrui
l’épouvantail désuet

demain
à quand demain mon peuple
la déroute mercenaire
finie la fête

mais la rougeur de l’est au coeur de balisier

peuple de mauvais sommeil rompu
peuple d’abîmes remontés
peuple de cauchemars domptés
peuple nocturne amant des fureurs du tonnerre
demain plus haut plus doux plus large

et la houle torrentielle des terres
à la charrue salubre de l’orage

livre_dos_dias_estrangeiros02

meu povo

quando
livre dos dias estrangeiros
germinarás uma cabeça bem tua sobre os teus ombros renovados
sobre a tua palavra

a ordem de despejo lançada aos traidores
aos senhores
o pão restituído a terra lavada
a terra dada

quando
quando deixarás de ser o brinquedo triste
no carnaval dos outros
o espantalho antigo
no meios dos campos de outrem

amanhã
para quando amanhã meu povo
a derrota mercenária
o fim de festa

mas o rancor existe no coração do bambu

povo de mau sono desfeito
povo de abismos vencidos
povo de pesadelos domados
povo noturno amante do furor da tempestade
amanhã mais alto mais doce mais vasto

e a vaga torrencial das terras
na charrua salubre da tormenta

livre_dos_dias_estrangeiros01

Aimé Césaire, “Afrique – Ferrements Hors des jours étrangers“, in “Présence africaine” (1959)

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Teorema Fernando Pessoa

Na variedade curva diferencíavel FP,

as funções poéticas

B de Beleza,

D1 de Deleite,

D2 de Desassossego,

E de Empatia, etc,

com argumento pessoano,

são todas contínuas e infinitamente diferenciáveis, Cºº(FP),

isto é, são suaves,

quando a plenitude e as relações de ortonomalidade

associadas aos diversos estados do poeta forem satisfeitas.

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Orfeu B. in “Teorema Fernando Pessoa“, de “Instituto de Felicidade Teórica“, Lisboa (2002)

Faces / Rostos

I have seen a face with a thousand countenances, and a face that was but a single countenance as if held in a mould.

I have seen a face whose sheen I could look through to the ugliness beneath, and a face whose sheen I had to lift to see how beautiful it was.

I have seen an old face much lined with nothing, and a smooth face in which all things were graven.

I know faces, because I look through the fabric my own eye weaves, and behold the reality beneath.

faces_rostos01

Vi um rosto de mil semblantes, outro de um semblante só, como se estivesse vazado num molde imutável.

Vi um rosto que não ocultava a sua intima fealdade, e um rosto cujo o brilho ocultava uma beleza esplendorosa.

Vi um velho rosto enrugado sem rugas e outro rosto liso em que todas as coisas tinha deixado suas pegadas.

Conheço todos os rostos, porque vejo através do tecido que os meus olhos vão tocando e contemplo a realidade que fica por detrás deste tecido.

faces_rostos02

Khalil Gibran in “Rostos” de “O louco” (1918)

I’m Nobody! Who are you?

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

I_m_Nobody_Who_are_you02

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também – tu não és – Ninguém?
Somos um par – nada digas!
Banir-nos-iam – não sabes?

Mas que horrível – ser-se – Alguém!
Uma Rã que o dia todo –
Coaxa em público o nome
Para quem a admira – o Lodo.

I_m_Nobody_Who_are_you01

Emily Dickinson in “I’m Nobody! Who are you?” de “Poems, Series 2” (1891)

Calypso / Calipso

Dríver drive fáster and máke a good rún
Down the Spríngfield Line únder the shíning sún.

Flý like an aéroplane, dón’t pull up shórt
Till you bráke for Grand Céntral Státion, New Yórk.

For thére in the míddle of thát waiting-háll
Should be stánding the óne that Í love best of áll.

If he is nót there to méet me when Í get to tówn,
I’ll stánd on the side-walk with téars rolling dówn.

For hé is the óne that I lóve to look ón,
The ácme of kindness and pérfectión.

He présses my hánd and he sáys he loves mé,
Which I fínd an admiráble pecúliaritý.

The wóods are bright gréen on both sídes of the líne;
The trées have their lóves though they’re different from míne.

But the póor old fat bánker in the sún-parlour cár
Has nó one to lóve him excépt his cigár.

If Í were the Héad of the Chúrch or the Státe,
I’d pówder my nóse and just téll them to wáit.

For lóve’s more impórtant and pówerful thán
Ever a príest or a póliticián.

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Maquinista, guia mais depressa e faz uma boa viagem
Até à linha de Springfield sob o sol cintilante.

Voa como um avião, não pares bruscamente
Até travares na Grande Estação Central, em Nova Iorque.

Pois lá no meio daquela sala de espera
Deve estar aquele que eu mais amo.

Se ele não estiver à minha espera quando eu chegar à cidade,
Ficarei no passeio com lágrimas banhando-me no rosto.

Ele é quem eu gosto de contemplar
– Acme de bondade e perfeição.

Agarra-me uma das mãos e diz quanto me ama,
O que penso ser uma admirável excentricidade.

Dos dois lados da linha os bosques são de um verde vivo;
As árvores têm os seus amores embora diferentes do meu.

Mas o infeliz banqueiro, velho e gordo, na luxuosa carruagem
Não têm alguém que o ame a não ser o seu charuto.

Se eu fosse o chefe da igreja ou do estado,
Empoaria o nariz e diria para esperarem.

Pois o amor é mais importante e poderoso
Que um sacerdote ou um político.

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Wystan Hugh Auden, dito W. H. Auden, in “Calipso” de “Diz-me a verdade acerca do amor” (maio de 1939)

Desilusão

Desiludido com o mundo,
Afrânio concluiu: «uns são filhos da puta,
outros só não o são
porque a mãe é estéril»

Decidido ao suicídio,
no alto da falésia hesitou:
«no mar não me lanço
que é demasiada sepultura.
Como receberei flores
entre tanto peixe faminto?»

Ante a fogueira, Afrânio desfez as contas:
«Na labareda, não.
Como me distinguiria,
depois, entre a cinza da lenha ardida?»

Quando na alta copa se pensou pendurar,
uma vez mais ele se avaliou.
E recordou o vizinho Salomão
que, de enforcado, se converteu em fruto,
seiva correndo na veia,
polpa viva a seduzir a passarada.

Afrânio regressou a casa,
resfregou as solas sobre os tapetes,
a esposa festejou o novo alento.

Engano seu, mulher; respondeu Afrânio
Eu apenas escolhi outro suicídio.
A minha morte é este viver.

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Mia Couto, in “Desilusão” de “idades cidades divindades” capítulo “cidades” (Maputo, 2006)

Casida de la rosa / Casida da Rosa

La rosa
no buscaba la aurora:
casi eterna en su ramo,
buscaba otra cosa.

La rosa,
no buscaba ni ciencia ni sombra:
confín de carne y sueño,
buscaba otra cosa.

La rosa,
no buscaba la rosa.
Inmóvil por el cielo
buscaba otra cosa.

casida_de_la_da_rosa02

A rosa
não buscava a aurora:
quase eterna em seu ramo,
buscava outra coisa.

A rosa
não buscava nem ciência nem sombra:
confim de carne e sonho,
buscava outra coisa.

A rosa
não buscava a rosa.
Imóvel pelo céu
buscava outra coisa.

casida_de_la_da_rosa01

Federico García Lorca in “Casida* de la rosa” de “Casidas“, Madrid, (1969)

* A “casida (em árabe culto: قصيدة – qaṣīda, em persa/farsi: چكامه – chakâmé), é uma forma de escrita poética própria da arábia pré islâmica, esta forma de escrita tratava-se de um género poético que era normalmente extenso, ou seja, cada poema teria normalmente mais de 50 versos e em alguns casos teria mais de 100, numa versão tardia, foi adotada amplamente pelos persas, que a usaram assiduamente.

O outro idioma

Inquirido
sobre a sua Fluência
em português, respondeu:

tenho duas línguas:
uma para mentir,
outra para ser enganado.

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A professora
ainda perguntou:
E qual delas é o português?

Já não me lembro, respondeu.

Mia Couto, in “O outro idioma” de “idades cidades divindades” capitúlo “cidades” (Maputo, 2006)

Las Trece Rosas / As Treze Rosas

Madrid se viste de luto,
por trece rosas castizas,
trece vidas se cortaron,
siendo jóvenes, casi niñas.

Malditas sean las almas,
de sus verdugos fascistas,
que con guadañas de odio,
segaron sus cortas vidas.

España es vuestra madre,
su cielo vuestra sonrisa.
sus campos tienen la sangre,
de unas rosas, casi niñas.

El pueblo de Madrid os quiere,
ese pueblo que abomina,
de salvadores de patrias,
de rojos y de fascistas.

Madrid es patria de todos,
su nombre solo mancillan,
el odio de los caciques,
cuya razón es la envidia.

Las rosaledas de parques,
de esta, nuestra España chica,
reflejarán vuestras caras,
vuestras sonrisas de niñas.

Benditas seáis mil veces,
benditas vuestras familias,
malditos los asesinos,
que nuestras rosas marchitan.

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Madrid veste-se de luto,
por treze rosas puras,
treze vidas foram cortadas,
sendo jovens, quase crianças.

Malditas sejam as almas,
dos seus algozes fascistas,
que com foices ódio,
colheram as suas curtas vidas.

Espanha é a vossa mãe,
o céu o seu sorriso.
mas seus campos têm o sangue,
de umas rosas, quase crianças.

O povo de Madrid que os quer,
esse povo que abomina,
de salvadores da pátria,
de vermelhos e de fascistas.

Madrid é a pátria de todos,
e o seu nome só é sujo,
pelo ódio dos caciques,
cuja razão é a inveja.

Os jardins de rosas em parques,
desta, nossa menina Espanha,
refletirão os vossos rostos,
e os vossos sorrisos de meninas.

Bendito sejais mil vezes,
abençoadas as vossas famílias,
malditos os assassinos,
que murcham as nossas rosas.

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Julian Fernández del Pozo, in “Homenaje a las trece rosas en su honor” (janeiro de 2004)

El día que será / O Dia que será

Ya no importa saberlo. Será el día
del arco iris cómplice del agua
que llore demasiado por los muertos,
y habrá quizás en el ambiente estigmas
de señalada indecisión, palomas
que endulzarán la luz, gaviotas grises
salobres de renuncia y de recuerdo
y golondrinas, golondrinas blancas…
Hasta vendrán las olas más rebeldes
llenas de pez disuelto, a verte quieta
y a dejarte la brisa en vez del viento
sobre la piel, con terquedad amorosa.

Un día como tantos. De la huida
tan sólo quedará aquella palabra
que seguirá secreta, intraducible,
y, cada vez que vuelva el arco iris,
vendrás -roja, amarilla, azul y verde-
a pretender decirla.

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Já não importa sabe-lo. Será o dia
do arco-íris cúmplice da água
que muito chore pelos mortos
e haverá talvez no ambiente estigmas
de assinalada indecisão, gaivotas cinzentas
salobras de renúncia e de memória
e andorinhas, andorinhas brancas…
Até virão as ondas mais rebeldes
repletas de peixe dissolvido, para te ver quieta
e deixar-te a brisa em vez do vento
sobre a pele, com obstinação amorosa.

Um dia como tantos. Da fuga
tão só ficará aquela palavra
que continuará secreta, intraduzível,
e, cada vez que regresse o arco-íris,
virás – vermelha, amarela, azul e verde –
pretender dizê-la.

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María Beneyto i Cuñat, in “O Dia que será” de “Quase um pouco de nada” (2000)

Buracos

Fartou-se de rir
Silvestre Vitalício
quando lhe falaram
do buraco do ozono.

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Como podem ser
tão supersticiosos?, perguntou.

Se o céu inteiro é um buraco!, argumentou.

Pecado é o Homem
usar seu vazio
para tapar esse altíssimo nada.

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Mia Couto, in “Buracos” de “idades cidades divindades” capítulo “cidades” (Maputo, 2006)

Tríada / Tríade

El alivio que habrá sentido César en la mañana de
Farsalia, al pensar: Hoy es la batalla.
El alivio que habrá sentido Carlos primero al ver el
alba en el cristal y pensar: Hoy es el día del
patíbulo, del coraje y del hacha.
El alivio que tú y yo sentiremos en el instante que
precede a la muerte, cuando la suerte nos desate de la
triste costumbre de ser alguien y del peso del
universo.

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O alívio que César terá sentido na manhã de
Farsália, ao pensar: Hoje é a batalha.
O alívio que Carlos primeiro terá sentido ao ver a
aurora no vidro e pensar: Hoje é o dia do
patíbulo, da coragem e da acha.
O alívio que tu e eu sentiremos no instante que
precede a morte, quando a sina nos libertar do
triste hábito de ser alguém e do peso do
universo.

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José Luis Borges, in “Tríade” de “Os Conjurados” (1985)

A concha / The shell / Раковина

Talvez não precises de mim,
Noite; da mundial voragem
Tal como a concha sem pérolas,
A tua margem fui lançado.

Tu espumas as ondas com indiferença
E cantas com teimosia,
Mas terás apreço, amarás
Da concha a inútil mentira.

Ao seu lado deitarás na areia,
Com sua casula te vestirás,
Um indestrutível e grande sino
Com ela na marola erguerás.

E as paredes da frágil concha,
Como a casa de vazio coração
Encherás com os sussurros da espuma,
Com a chuva, o vento e a bruma…

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Night, maybe you don’t need
me. From the world’s reach,
a shell without a pearl’s seed,
I’m thrown on your beach.

You move indifferent seas,
and always sing,
but you will still be pleased,
with this superfluous thing.

You lie nearby on the shore,
wrapped in your chasuble,
and the great bell of the waves’ roar,
you will fasten to the shell.

Your murmuring foam will kiss
the walls of the fragile shell,
with wind and rain and mist,
like a heart where nothing dwells.

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Быть может, я тебе не нужен,
Ночь; из пучины мировой,
Как раковина без жемчужин,
Я выброшен на берег твой.

Ты равнодушно волны пенишь
И несговорчиво поешь;
Но ты полюбишь, ты оценишь
Ненужной раковины ложь.

Ты на песок с ней рядом ляжешь,
Оденешь ризою своей,
Ты неразрывно с нею свяжешь
Огромный колокол зыбей;

И хрупкой раковины стены,
Как нежилого сердца дом,
Наполнишь шепотами пены,
Туманом, ветром и дождем…

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Osip Mandelstam, in “A concha” de “A Pedra” (1911)

Homenagem à declamadora Maria de Jesus Barroso Soares

Prometeu

Abafai meus gritos com mordaças,
maior será a minha ânsia de gritá-los!

Amarrai meus pulsos com grilhões,
maior será minha ânsia de quebrá-los!

Rasgai a minha carne!
Triturai os meus ossos!

O meu sangue será a minha bandeira
e meus ossos o cimento duma outra humanidade.

Que aqui ninguém se entrega
– isto é vencer ou morrer –
é na vida que se perde
que há mais ânsia de viver!

Joaquim Namorado, in “Prometeu” de “A Guerra e a Paz”

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Phonographo

Vai declamando um cómico defunto.
Uma plateia ri, perdidamente,
Do bom jarreta… E há um odor no ambiente
A cripta e a pó — do anacrónico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
Lírios, lírios, águas do rio, a lua…
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul — extática corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro — o cheiro de junquilhos,
Vívido e agro! — tocando a alvorada…

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas!

Esvelta surge! Vem das águas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexíveis e o seio fremente…
Morre-me a boca por beijar a tua.

Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha?
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
Tão branco o peito! — para o expor à Morte…
Mas que ora — a infame! — não se te anteponha.

A hidra torpe!… Que a estrangulo… Esmago-a
De encontro à rocha onde a cabeça te há-de,
Com os cabelos escorrendo água,

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.

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Desce em folhetos tenros a colina
— Em glaucos, frouxos tons adormecidos,
Que saram, frescos, meus olhos ardidos,
Nos quais a chama do furor declina…
Desce em folhedos tenros a colina:

Oh vem, de branco — do imo da folhagem!
Os ramos, leve, a tua mão aparte.
Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,
Refletir-te virgem a serena imagem.

De silva doida uma haste esquiva
Quão delicada te osculou num dedo
Com um aljôfar cor-de-rosa viva!…

Ligeira a saia… Doce brisa, impele-a.
Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo!
Alma de silfo, carne de camélia…

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las…
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!…
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos…

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha, in “Phonographo” de “Clepsidra”/”A Tribuna de Lisboa” (15 de Outubro de 1899) e datado de “Macau, 1896”

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Notre vie / A nossa vida

Notre vie tu l´as faite elle est ensevelie
Aurore d´une ville un beau matin de mai
Sur laquelle la terre a refermé son poing
Aurore en moi dix-sept annés toujours plus claires
Et la mort entre en moi comme dans un moulin

Notre vie disais-tu si contente de vivre
Et de donner la vie à ce que nous aimions
Mais la mort a rompu l´équilibre du temps
La mort qui vient la mort qui va la mort vécue
La mort visible boit et mange à mes dépens

Morte visible Nusch invisible et plus dure
Que la soif et la faim à mon corps épuisé
Masque de neige sur la terre et sous la terre
Source des larmes dans la nuit masque d´aveugle
Mon passé se dissout je fait place au silence

notre_vie02

A nossa vida tu a fizeste está amortalhada
Aurora de uma cidade numa bela manhã de maio
Sobre a qual a terra abateu seu punho
Aurora em mim dezassete anos de crescente claridade
E a morte entra em mim e não bate à porta

A nossa vida como tu dizias contente por viver
E dar a vida ao que os dois amávamos
Mas a morte rompeu o equilíbrio do tempo
A morte que chega a morte que se vai a morte vivida
A morte evidente como e bebe e sou eu que pago

Morte evidente Nusch que se não vê e mais dura
Do que a sede e a fome para o meu corpo esgotado
Máscara de neve sobre a terra e debaixo da terra
Fonte das lágrimas na noite máscara de cego
O meu passado passa e dissolve-se dou lugar ao silêncio

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Eugène Émile Paul Grindel, dit Paul Éluard, in “Notre Vie” de “Le Temps déborde” (1947)

 

Mural / Escritura mural / Wall Writing

Nada menos que nada.

Na noite que vem
do nada,
por ninguém
na noite que não vem.

E o que se firma na orla da brancura,
invisível
ao olhar daquele que fala.

Ou uma palavra.

De nenhum lugar
vem na noite
daquele que não vem.

Ou a brancura de uma palavra
riscada
contra a parede.

Nada menos que nada.

mural01

En la noche que viene
de la nada,
para nadie
en la noche que no viene.

Y lo que se levanta al borde da la blancura,
invisible
en el ojo de quien habla.

O una palabra

Ven de ningún sitio
en la noche
de quien no viene.

O la blancura de una palabra
garabateada
en el muro

mural02

Nothing less than nothing.

In the night that comes
from nothing,
for no one in the night
that does not come.

And what stands at the edge of whiteness,
invisible
in the eye of the one who speaks.

Or a word.

Come from nowhere
in the night
of the one who does not come.

Or the whiteness of a word,
scratched
into the wall

mural03

Paul Auster, in “Wall Writing

Canção excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descida
não me animo a um breve traço:
– saudosa do que não faço
– do que faço, arrependida.

cancao_excentrica01

Cecília Meireles, in “Canção excêntrica” de Vaga Música

Hoje uma luz / Hoy una luz / One Today

Um sol brilhou sobre nós hoje, incendiando as nossas costas,
revelando-se sobre as montanhas, saudando os rostos
dos Grandes Lagos, espalhando uma simples verdade
Ao longo das Grandes Planícies, e depois correndo ao longo das Montanhas Rochosas.
Uma luz, despertando dos cumes aos abismos, uma história
contada pelos nossos gestos silenciosos e movendo-se atrás das janelas
Meu rosto, seu rosto, milhões de rostos nos espelhos da manhã,
cada um bocejando à vida, crescendo e fazendo o nosso dia:
Autocarros escolares amarelo-lápis, o ritmo dos semáforos,
cestos de frutas: mangas, limões e laranjas, sortidas como arco-íris
pedindo os nossos elogios. Camiões prateados pesados com petróleo ou papel –
tijolos ou leite, pululando pelas estradas ao nosso lado,
no nosso caminho a limpar mesas, rever livros de contabilidade, ou salvar vidas –
ensinar geometria, ou cobrar a comida como o filho à sua mãe
por vinte anos, para que eu possa escrever este poema.

Todos nós tão vitais como a única luz através da qual nos movemos,
a mesma luz nas lousas com lições para o dia:
equações para resolver, história para questionar, ou átomos imaginados,
o “Eu tenho um sonho” que seguimos sonhando,
o impossível vocabulário de tristeza que não explicará
as mesinhas, carteiras vazias de vinte crianças marcadas ausentes
hoje, e para sempre. Muitas orações, mas uma luz
respirando cor nos vitrais,
vida nos rostos das estátuas de bronze, calor
nas galerias dos nossos museus e nos bancos e nos parques
enquanto mães veem os seus filhos escapando para o dia.

Uma terra. Nossa terra, arreigada em cada raiz
de milho, cada cabeça de trigo semeada por suor
e mãos, mãos recolhendo carvão ou ficando em fábricas
em desertos e picos de colinas que nos mantém quentes, mãos
cavando valas, aproveitando tubos e cabos, mãos
gastas como as de meu pai cortando cana-de-açúcar
para que meu irmão e eu pudéssemos ter livros e sapatos.
O povo de fazendas e desertos, cidades e planícies
misturados por um vento-nosso alento. Respira. Escuta-o
através do belo ruído do dia de táxis buzinando
autocarros que se lançam por avenidas, a sinfonia
de passos, guitarras e gemidos de carruagens de metro,
o inesperado pássaro de canto no seu estendal.

Escuta: estridentes balanços nos parques, comboios silvando
ou sussurros cruzando mesas em cafés. Escuta: as portas que abrimos
um para o outro todo dia, dizendo: hello, shalom,
buon giorno, howdy, namaste ou buenos dias
no idioma que minha mãe me ensinou – em cada idioma
falado ao vento levando nossas vidas
sem preconceitos, enquanto estas palavras livram meus lábios.

Um céu: desde que os Apalaches e Serras reclamaram
sua majestade, e o Mississipi e Colorado forjaram
o seu caminho até o mar. Dá graças ao trabalho das nossas mãos:
tecendo o aço nos poentes, terminando uma denúncia mais
para o chefe a tempo, costurando outra ferida
o uniforme, a primeira pincelada num retrato,
o último andar do Freedom Toweer
projetando-se no céu que cede ante à nossa resistência

Um céu, para o qual às vezes voltamos os nossos olhos
cansados de trabalhar: alguns dias adivinhando o clima
de nossas vidas, alguns dias dando graças por um amor
que também te ama, algumas vezes elogiando uma mãe
que soube dar, ou perdoar um pai
que não soube te dar o que queria.

Vamos caminhando para casa: através do brilho e da chuva ou o peso
da neve, o rubor ameixa do crepúsculo, para sempre — a casa,
sempre debaixo de um mesmo céu, nosso céu. E sempre uma lua
como tambor silencioso batendo em cada teto
e em cada janela, de um país — todos nós —
vendo as estrelas,
esperança — uma nova constelação
esperando que a cartografemos
esperando que a nomeamos — juntos.

one_today03

Un sol se alzó hoy en nosotros, encendido sobre nuestras costas,
espiando sobre las Smokies, saludando los rostros
de los Grandes Lagos, regando una simple verdad
a lo ancho de las Grandes Praderas, para luego lanzarse contra las Rocallosas.
Una luz, que despierta tejados, bajo cada uno una historia
que cuentan nuestros mudos gestos al moverse tras las ventanas.
Mi rostro, tu rostro, millones de rostros en los espejos de la mañana,
cada uno bostezando ante la vida, en gradual ascenso hacia nuestro día;
camiones escolares como lápices amarillos, el ritmo de los semáforos,
puestos de frutas: manzanas, limones, y naranjas como arcoíris
pidiéndonos un elogio. Plateados camiones cargados de aceite o papel—
ladrillos o leche, como enjambre en las carreteras junto a nosotros,
que vamos camino de limpiar mesas, leer carpetas o salvar vidas—
a dar clases de geometría, o vender comestibles como lo hizo mi madre,
por veinte años, para que yo pudiera escribir este poema.

Todos tan vitales como la luz que atravesamos,
la misma luz sobre los pizarrones de la clase de hoy:
ecuaciones por resolver, historias que cuestionar, o átomos por imaginar,
aquel “yo tengo un sueño” que seguimos soñando,
o el imposible vocabulario de la pena que no explicará
los pupitres vacíos de veinte niños ausentes
hoy, y para siempre. Muchas oraciones, pero una luz
que infunde color a los vitrales,
vida a los rostros de bronce de las estatuas, calor
a los escalones de los museos y las bancas de los parques
donde las madres miran a sus hijos jugar al paso del día.

Un suelo. Nuestro suelo, que nos arraiga a cada tallo
del maíz, cada espiga de trigo sembrada con sudor
y manos, manos que recogen el carbón o ponen molinos
en los desiertos y las cimas de las colinas para darnos calor, manos
que cavan zanjas, que enlazan tuberías y cables, manos
tan gastadas como las de mi padre tras cortar caña
para que mi hermano y yo tuviésemos libros y zapatos.
El polvo de granjas y desiertos, ciudades y praderas,
mezclados por un viento –nuestro aliento. Respira. Óyelo
hoy en el precioso jaleo de cláxones de taxis,
camiones que se lanzan por las avenidas, la sinfonía
de pasos, guitarras, y escandalosos trenes subterráneos,
el inesperado canto del pájaro sobre el tendedero.

Oye: los rechinantes columpios del parque, el pitido de los trenes,
o los susurros que escapan de las mesas del café, oye: las puertas que nos abrimos
cada día, diciéndonos: hola | shalom,
buon giorno | howdy | namasté | o buenos días
en el idioma que mi madre me enseñó —en cada idioma
hablado en el viento que transporta nuestras vidas
sin prejuicio, como estas palabras que parten mis labios.

Un cielo: desde los Apalaches y las Sierras reclama
su majestad, y el Mississippi y el Colorado serpentean
su cauce hacia el mar. Agradecemos el trabajo de nuestras manos:
tejen acero para formar puentes, escriben otro informe a tiempo
para que lo vea el jefe, dan puntadas a otra herida
o uniforme, dan la primera pincelada a un retrato,
o el último escobazo al piso más alto de la Freedom Tower
elevándose hacia un cielo que cede ante nuestra persistencia.

Un cielo, hacia el que a veces alzamos nuestros ojos
cansados de trabajar: algunos días quieren adivinar el clima
de nuestras vidas, algunos días dan gracias por un amor
correspondido, algunas veces dan gracias por una madre
que supo cómo dar, o perdonan a un padre
que no pudo dar lo que quisimos.

Nos vamos a casa: a través del lustre de la lluvia o el peso
de la nieve, o el plúmbeo rubor del ocaso, pero siempre — la casa,
siempre bajo un cielo, nuestro cielo. Y siempre una luna
como un mudo tambor que resuena sobre cada tejado
y ventana, de un solo país —todos nosotros—
de cara a las estrellas
esperanza — una nueva constelación
que espera que la bosquejemos,
que espera que la nombremos — juntos.

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One sun rose on us today, kindled over our shores,
peeking over the Smokies, greeting the faces
of the Great Lakes, spreading a simple truth
across the Great Plains, then charging across the Rockies.
One light, waking up rooftops, under each one, a story
told by our silent gestures moving behind windows.
My face, your face, millions of faces in morning’s mirrors,
each one yawning to life, crescendoing into our day:
pencil-yellow school buses, the rhythm of traffic lights,
fruit stands: apples, limes, and oranges arrayed like rainbows
begging our praise. Silver trucks heavy with oil or paper—
bricks or milk, teeming over highways alongside us,
on our way to clean tables, read ledgers, or save lives—
to teach geometry, or ring-up groceries as my mother did
for twenty years, so I could write this poem.

All of us as vital as the one light we move through,
the same light on blackboards with lessons for the day:
equations to solve, history to question, or atoms imagined,
the “I have a dream” we keep dreaming,
or the impossible vocabulary of sorrow that won’t explain
the empty desks of twenty children marked absent
today, and forever. Many prayers, but one light
breathing color into stained glass windows,
life into the faces of bronze statues, warmth
onto the steps of our museums and park benches
as mothers watch children slide into the day.

One ground. Our ground, rooting us to every stalk
of corn, every head of wheat sown by sweat
and hands, hands gleaning coal or planting windmills
in deserts and hilltops that keep us warm, hands
digging trenches, routing pipes and cables, hands
as worn as my father’s cutting sugarcane
so my brother and I could have books and shoes.
The dust of farms and deserts, cities and plains
mingled by one wind—our breath. Breathe. Hear it
through the day’s gorgeous din of honking cabs,
buses launching down avenues, the symphony
of footsteps, guitars, and screeching subways,
the unexpected song bird on your clothes line.

Hear: squeaky playground swings, trains whistling,
or whispers across café tables, Hear: the doors we open
for each other all day, saying: hello| shalom,
buon giorno |howdy |namaste |or buenos días
in the language my mother taught me—in every language
spoken into one wind carrying our lives
without prejudice, as these words break from my lips.

One sky: since the Appalachians and Sierras claimed
their majesty, and the Mississippi and Colorado worked
their way to the sea. Thank the work of our hands:
weaving steel into bridges, finishing one more report
for the boss on time, stitching another wound 3
or uniform, the first brush stroke on a portrait,
or the last floor on the Freedom Tower
jutting into a sky that yields to our resilience.

One sky, toward which we sometimes lift our eyes
tired from work: some days guessing at the weather
of our lives, some days giving thanks for a love
that loves you back, sometimes praising a mother
who knew how to give, or forgiving a father
who couldn’t give what you wanted.

We head home: through the gloss of rain or weight
of snow, or the plum blush of dusk, but always—home,
always under one sky, our sky. And always one moon
like a silent drum tapping on every rooftop
and every window, of one country—all of us—
facing the stars
hope—a new constellation
waiting for us to map it,
waiting for us to name it—together.

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Richard Blanco, in “One Today

Pássaros / Birds

De acordo com a mais recente classificação, os curdos
agora pertencem a uma espécie de ave
é por isso que, ao longo das páginas amareladas e rasgadas
da história, eles são nómadas marcados pelas suas caravanas.
Sim os curdos são pássaros! E mesmo quando
não há nenhum lugar à esquerda, não há refúgio para a sua dor,
e voltam-se para a ilusão de viajar
entre o calor e o frio
da sua terra natal. Então, naturalmente,
eu não acho estranho que os curdos possam voar.
Eles vão de país para país
e não podem realizar os seus sonhos de se sedentarizar,
de formar uma colónia. Eles não constroem ninhos
nem mesmo no seu pouso final
eles visitam Mewlana para consultar a sua saúde,
ou curvar à poeira no vento suave, como Nali*.

*Refere-se a uma famosa estrofe de Nali, poeta do século XVII:
Eu sacrifico-me na tua poeira – ó vento suave!
Mensageiro familiarizado com todo o Sharazoor!

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According to the latest classification, Kurds
now belong to a species of bird
which is why, across the torn, yellowing pages
of history, they are nomads spotted by their caravans.
Yes, Kurds are birds! And even when
there’s nowhere left, no refuge for their pain,
they turn to the illusion of travelling
between the warm and the cold climes
of their homeland. So naturally,
I don’t think it strange that Kurds can fly.
They go from country to country
and still never realise their dreams of settling,
of forming a colony. They build no nests
and not even on their final landing
do they visit Mewlana to enquire of his health,
or bow down to the dust in the gentle wind, like Nali*.

*Refers to a famous strophe from Nali, XVII century poet:
I sacrifice myself to your dust – you gentle wind!
Messenger familiar with all of Sharazoor!

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Kajal Ahmad, in “Pássaros”